.alambique da morte
Deu sua água aos mortos quando descobriu que sua Chani era na verdade uma Irulan.
.a canção
Pedro sempre quis escrever uma canção.
Tinha a história dos pais escolhendo seu nome bíblico, seu avô atirando num boi para salvar a vida de sua tia, “muito antes de você nascer”. Tinha uma vida maravilhosa e muitos causos para cantar.
Tinha um pomar e um viveiro de orquídeas, tinha um sítio e flores amarelas, tinha amor para dar e vender.
Quando andava, o sol o perseguia, era como se emanasse de seus cabelos amarelos, feliz.
Poderia cantar sobre os pássaros, sobre as plantas molhadas de orvalho pela manhã, sobre o peito que acolhe.
Escreveu um pagode com palavras de baixo calão para aquela que apelidou de filha do Diabo.
Tentou aprender pandeiro, mas contentou-se com a meia-lua.
.tudo diferente
Então deitou-se.
No escuro, onde ninguém o viu chorar, permaneceu.
Cabeça no travesseiro, angústia e febre. O corpo faz exigências, a alma suplica. Não era a dor a que estava acostumado, não tinha mais medo e os calafrios eram curiosamente bons.
-Quem sou eu? - Perguntou a si mesmo.
No escuro, onde ninguém o viu chorar, sorriu.
Então dormiu.
.quase tudo
- Eu tenho direito a tudo.
- Não, não tem.
- Tenho sim, eu posso ter tudo.
- Não pode ter aquilo que jogou fora.
.contemplar
Sentou e tentou ajustar o foco dos olhos nos cabelos dela, como um fotógrafo que ajusta os anéis de sua objetiva, tentou organizar o caos. Apenas tentou, seus olhos corriam loucos por cada uma de suas curvas e cores.
Sentia-se metralhado por milhões de sensações que se misturavam com lembranças de coisas que não viveu mas que sabia que queria experimentar, sim, mais.
O frio na barriga, a ansiedade de litros de café. Vomitando expectativa e alegria. Um brilho no olho que não é reflexo.
- Que foi?
- Tô te contemplando.
E os pássaros miúdos sentam no fio de luz do outro lado da rua, enquanto o menino prepara o bodoque.
.o novo
Sentiu, ainda que sem abrir os olhos, que já era dia. Havia luz e havia calor, sentia o cheiro da grama lá de fora. Virou a cabeça de lado e preparou-se para sentar. Devagar calçou o chinelo como fazia todas as manhãs. Levantou com uma coisa estranha pinicando o peito.
A luz que entrava pela janela o atraiu e quando olhou para fora não tinha palavras.
A macieira morta que jazia em seu jardim tinha, não uma, mas duas frutas vermelhas e lindas. Seus galhos secos agora estavam cobertos de folhas verdes e cheirosas.
Pensou que talvez fosse o tempo do novo e aprendeu a sorrir novamente.
A coisa pinicando o peito era um marimbondo, matou com um tapão.
.queria
Queria sentir a catarse, parecia gostoso. Invejava a habilidade das pessoas de se entregar a uma força de grupo, ceder a uma consciência coletiva. Parecia trazer um bem estar que nunca conheceu.
Gostava das sensações, não sentia quase nada.
Não sentia o ácido que deveria deixar tudo colorido e mágico, não compreendia que coisa era essa que chamavam de amor, apenas observava. Tudo o que sentia vinha da observação, um tédio.
Queria sentir a dança, mas nesse caso até sentia algo, mas evidentemente não era a dança. Sentia vergonha, não servia. Achava que a dança era apenas um exercício de abandono dos limites do que se acha ridículo. Não queria o ridículo nem por um segundo, mas ansiava pela paixão nos olhos dos idiotas.
Queria sentir a euforia dos bêbados. Com sorte sentia um embrulho e alguma vontade de vomitar. Ninguém gosta de vomitar, nem aquelas pessoas doentes que o fazem por compulsão. Ninguém gosta.
Queria se iludir com o amor a ponto de se jogar feito um cego no escuro das coisas mágicas, mas observava. Quando se observa durante muito tempo, qualquer coisa fica feia.
Queria sentir os cheiros diferentes. A vida na cidade tinha um cheiro meio cinza e cheiro não deve ter cor. Cheiro com cor é ruim, sempre. Cheiro em pedaços, pedaços coloridos. Queria mais cheiros, mas o bigode só resgatava o cheiro da última refeição ou de alguma boca amarga.
Queria entender essas coisas que todos dizem ser simples.
Pediu uma coxinha para viagem. -Aquela ali do cantinho, mais gordinha.- Comprou uma carteira de cigarros e enquanto atravessava a rua a correia do chinelo arrebentou e gritou alto.
- Ô lazarento!
Depois foi embora descalço comendo a coxinha.
.de repente
Deu uma mordida no pedaço enorme de vontade que tinha nas mãos e saiu correndo, rindo e tropeçando e babando.
.laura e as almas mortas carregadas nas costas
Laura era daquelas mulheres que tem um mundo só seu, inalcançável, indescritível, impossível dentro das possibilidades que só ela conhecia, ou compreendia.
Não tinha muitos planos, o que fazia com que pulasse de cama em cama, geralmente esquentando a próxima antes de partir da atual, assim não precisava nunca pisar no chão frio.
Vivia o tédio de sonhos compartilhados em vão, sugando sem piedade a esperança dos poucos idiotas que costumavam rondar suas coxas tatuadas. Ouvia os anseios dos outros, comprometia-se em ajudar, mas geralmente partia antes que o outro percebesse, cultivando um novo jardim só seu, sem olhar para as flores mortas que ficaram no caminho.
Remorso nunca teve, pois em nada acreditou, nada além da imensidão de seu umbigo pequenino, pelo menos até aquele dia, o dia em que dormiu sozinha.
A imensidão da cama sem o amparo tão conhecido não era infinita, como logo percebeu. Tal qual a caravela que ruma para a borda do mundo e cai no abismo cósmico, rolou e caiu do colchão, sentindo o chão gelado pela primeira vez em muitos e muitos anos. Olhou desesperada à procura da mão que deveria estar ali para levantá-la, porém não viu ninguém. Rolou para a escuridão debaixo da cama e lá ficou.
Passou a se alimentar de comida para gatos e nunca mais viu a luz do sol novamente. Pouco importava se sentia saudade ou falta do mundo, ele não a percebia mais.
.o beijo dado pensando em outro alguém
Triste era a dor de perder aquilo que nunca teve.